sobre peixes e baleias
Duas semanas. Dois contextos opostos. E uma mesma pergunta a atravessá-los: o que ainda é real?
De um lado, uma ilha em Cabo Verde, onde a escassez é concreta — pouca água, poucos recursos, infraestrutura limitada. Ainda assim, a vida acontece com uma intensidade difícil de reproduzir: comunidades que se juntam ao final do dia, panelas que alimentam ruas inteiras, crianças a ocupar o espaço público, tempo partilhado.
Do outro, Roma. Um encontro internacional cuidadosamente desenhado, onde tudo é pensado ao detalhe. Abundância de acesso, estímulo, ambição — e conversas sobre o futuro das cidades enquadrado como um projeto de design.
Entre esses dois mundos, um desconforto difícil de ignorar.
Nos últimos anos, acelerou-se uma espécie de esgotamento perceptivo: a sobrecarga de estímulos e narrativas foi achatando a capacidade de sentir. Torna-se cada vez mais difícil sustentar atenção ao que é encenado, ao que não tem consequência — não por rejeição ao leve, mas pela saturação do que apenas parece ser.
O problema começa quando o fugaz deixa de ser intervalo e passa a ser base.
Curiosamente, é na simplicidade que algo volta a acontecer. Uma panela de sopa que alimenta uma rua inteira carrega mais densidade do que muitas experiências desenhadas para impressionar — porque ali há implicação, necessidade, partilha real.
Se na Europa havia "tubarões" do business e da inovação, foi em África que o encontro com uma baleia e a sua cria deixou a marca mais nítida. As duas a respirar à superfície, a poucos metros de um barco mínimo. A escala desloca-se. Surge uma relação imediata: mamífera, como elas. Sem mediação, sem narrativa: apenas som, presença, emoção.
Em Roma, uma imagem circulou entre os participantes: a de sermos “peixes pequenos a tentar subir uma montanha” na tentativa de construir cidades à prova de futuro. Uma metáfora sobre ambição, sobre insistir mesmo quando parece impossível.
Mas há uma camada anterior.
Há peixes ainda menores que não estão a tentar escalar nada — estão a tentar, simplesmente, permanecer na água. Essa diferença de ponto de partida altera tudo: o tipo de pergunta que se faz, o que se considera urgente, o futuro que se consegue imaginar.
Ao sair de uma das últimas sessões, um protesto por habitação ocupava as ruas de Roma. Comunidades imigrantes reivindicando o direito de viver na cidade — não como abstração, mas como urgência. O futuro, tema central de tantas conversas, apresentava-se ali no presente, em estado de tensão.
Talvez o desafio não seja apenas avançar — mais rápido, mais alto, mais longe — mas discernir o que merece ser levado junto. O que tem peso e o que é só superfície.
Num contexto de excesso, reter torna-se tão importante quanto conquistar. E a pergunta mais difícil talvez não seja o que vem a seguir — mas o que ainda é suficientemente real para ficar.
Porque o que está em jogo não é a quantidade de experiências que acumulamos, mas a qualidade da atenção que damos — e das realidades que decidimos não ignorar.
fotografia de Fernanda Curi, Cabo Verde, 2026.