(i)mutável
O ano mal começou e já passamos por tantas barbaridades que às vezes fica difícil acreditar que é possível seguir vivendo normalmente. Normalmente, aliás, já não sabemos bem o que é desde os tempos pandêmicos.
A cada notícia, a cada bomba, a cada sequestro, a cada morte, vamos nos intoxicando um pouco mais — e, ainda assim, seguimos tentando continuar, nos virando como podemos.
Uma das tarefas mais difíceis deste tempo é filtrar, aprender a estabelecer limites para aquilo que deixamos entrar. Nem toda informação precisa atravessar o corpo inteiro. Nem tudo precisa ser absorvido como verdade absoluta ou urgência permanente.
Pesadelos têm se tornado mais frequentes. Insônias, temores difusos e uma crescente falta de perspectiva sobre o futuro aparecem cada vez mais nas conversas, nas mensagens e nas consultas. Há uma sensação silenciosa de que algo se perdeu no caminho.
Nos últimos textos falei sobre (in)digestão e (im)potência — sobre aquilo que não conseguimos processar e sobre o sentimento de incapacidade diante de forças que parecem muito maiores do que nós. O passo seguinte dessa reflexão será olhar para outra pergunta:
o que em nós ainda pode permanecer estável em meio a tudo isso?
Porque em tempos de guerra dá vontade de mudar tudo. Mudar principalmente o estado de consciência desses homens que insistem em batalhas antigas. Mudar de cidade, de país, de planeta, de vida.
Nas últimas semanas ouvi algumas vezes a mesma pergunta: “qual seria um lugar seguro no mundo?”
Talvez o único lugar realmente seguro seja este que temos dentro de nós — e justamente por isso o cuidado com ele precisa ser diário. Cuidar desse espaço interno também implica reconhecer limites: do que consumimos, do que pensamos e do que permitimos que permaneça ocupando a nossa mente.
Lutamos tanto para manter as coisas como estão e, ao mesmo tempo, tudo está continuamente se transformando. O corpo muda, os nossos fazeres e afazeres, os gostos e desgostos, os amares e amores, os desejos e as renúncias.
Se tudo está em constante transformação — inclusive nós — por que suspeitamos tanto da impermanência? A impermanência não é o problema. Ela é o meio. O desafio não está apenas em impedir as mudanças, mas descobrir o que em nós não muda.
Nos Vedas, esse princípio imutável é chamado de Purusha — o ser essencial, a consciência que observa todas as formas e transformações da vida.
Essa consciência não pertence a um indivíduo. É a mesma essência que se manifesta em todos os seres — em nós, nos animais, na natureza. O que muitas vezes nos separa é a consciência individualizada, ahankara, que filtra a realidade através do ego e fragmenta aquilo que, em essência, é uno. Quando não há amor, essa fragmentação se torna conflito. Quando há, voltamos a reconhecer aquilo que sempre esteve lá, imutável: uma origem comum que atravessa todos os seres.
A tradição védica descreve a natureza da realidade como Sat-Chit-Ananda: Ser, Consciência e Beatitude — princípios que se manifestam como Vida, Luz e Amor.
Somos, em grande medida, aquilo que acreditamos ser. Nossos talentos, limites e caminhos refletem as ideias que carregamos sobre nós mesmos. Quando essa visão interna se torna negativa — sobre nós ou sobre o mundo — surge uma forma sutil de autodestruição que muitas vezes emerge como doença.
Tudo o que absorvemos pelos sentidos alimenta ou envenena a mente. Imagens, palavras, emoções e crenças tornam-se impressões profundas que moldam a forma como percebemos a realidade. Por isso, o discernimento também é um ato de cuidado. Uma tentativa de encontrar um limite, filtrar, escolher o que entra e o que permanece.
Talvez não possamos interromper as guerras do mundo, mas podemos observar com cuidado aquilo que deixamos entrar em nós, em nossa consciência.
Um dos gestos mais revolucionários, hoje, é justamente cuidar daquilo que alimenta a nossa mente. Porque aquilo que não conseguimos digerir acaba, inevitavelmente, nos adoecendo.
E assim voltamos àquela velha máxima: não existe mundo saudável em uma sociedade doente. No fim, o mundo também é aquilo que fazemos dele — individual e coletivamente.
Em meio a tanto ódio, que se sobreponha o amor — por si e pelo outro. As tradições antigas insistem em algo simples e radical: frente à dispersão e ao adoecimento provocados pelo ódio, o único sentimento capaz de agregar, nutrir e ser realmente digerido é o amor.
fotografia de Fernanda Curi, Porto, 2025.