(im)potência
Não existe sensação mais devastadora do que a impotência. Porque, no fundo, somos potência, essencialmente, ainda que muitas vezes esqueçamos disso. Ao esquecermos, olhamos para nós mesmos, para as outras pessoas, para os lugares e para o mundo com a lente da escassez. Prevalece o que falta, o que ainda não é…
Muitas vezes, porém, não se trata de acrescentar mais nada, mas de reconhecer, cuidar e fomentar aquilo que já existe com atenção, escuta e direcionamento. A potência não é necessariamente expansão, acumulação ou crescimento infinito.
A impotência se instala quando confundimos potência com poder. Quando passamos a medir a nossa força pelos critérios de um mundo que ainda insiste em associar poder ao domínio, à exploração e à destruição — do outro e da própria terra. Um mundo que segue exibindo seu poder pelo controle, pela violência e pela extração, mesmo à beira de um limite planetário catastrófico.
Essas relações de força tornam-se particularmente visíveis em contextos de exclusão social. Onde há precarização, migração ou desigualdade estrutural, as oportunidades são escassas, condicionadas, muitas vezes simbólicas. Quando surgem, exigem gratidão eterna — como se o que foi concedido definisse o limite do possível. Desejar mais torna-se excesso. Crescer, torna-se um desvio. A competência e a ambição, neste contexto, são toleradas apenas enquanto cabem em espaços estreitos e controlados, revelando hierarquias que regulam quem pode exercer sua potência, até onde e sob quais condições.
Como reencontrar a potência, a força interna que sustentaria a capacidade de mover algo — sem esmagar o que está mais frágil ao nosso lado, e dentro de nós mesmos? É preciso compreender a potência como força afirmativa, e não como imposição; como criação, e não como competição. Tal como nos ensina o Yoga, praticar o equilíbrio entre força e flexibilidade.
A insistência e a prevalência dos mesmos gestos — mais exploração, mais dominação, mais extração — aprofunda e alimenta esse ciclo de impotência. A catástrofe ambiental e os poderes odiosos caminham juntos: um sustenta o outro, enquanto nos habituamos à sensação de que nada pode ser feito. Uma naturalização da impotência.
A impotência não fica restrita às grandes escalas. Ela se infiltra no cotidiano, se reproduz em pequenas decisões, disputas miúdas e relações marcadas pela competição e pelo medo de perder. O que se apresenta como força, muitas vezes, é apenas repetição. Quanto mais a aposta é na força bruta e no controle, menos espaço resta para imaginar outros modos de existir.
A potência não está necessariamente no gesto consumado, mas no instante anterior. Como o pavão que, do alto de um muro, recolhe o corpo antes de alçar voo. Ainda há base sob os pés, ainda há peso, ainda há gravidade — mas o corpo já se organizou em outra direção. A potência vive nesse intervalo: entre o que sustenta e o que chama.
Em Nietzsche, a ideia de “vontade de potência” pode ser lida como esse movimento que antecede o gesto, uma força que não se confunde com dominação. A potência, nesse sentido, não é acumular poder, mas afirmar a vida — num processo contínuo de superação e autossuperação, mesmo em condições adversas, mesmo sem garantias.
Recuperar a potência passa, então, por recusar a lógica da dominação e por criar outros sentidos para a ação. Menos espetaculares, menos ruidosos, mas capazes de deslocar o curso das coisas.
Potência, então, não como conquista nem como controle, mas como capacidade de impulsionar e permanecer em movimento — mesmo quando tudo parece querer nos imobilizar.
fotografia de Fernanda Curi, Vila Nova de Gaia, Portugal, 2026