(in)digestão

A digestão é o processo que resume a nossa vida.
Por isso sempre volto a um princípio do Ayurveda:
você não é o que come, você é o que consegue digerir.

A digestão do alimento é clara.
Começa antes da boca: no cheiro, no olhar, no desejo.
Segue na mastigação e atravessa uma série de agnis, os fogos digestivos, até que tudo se transforma basicamente em três coisas:
- o que vira tecido, aquilo que nutre e passa a fazer parte de você;
- os resíduos que são eliminados;
- e os resíduos que não saem, que se acumulam e se tornam toxinas.

Quando ampliamos essa lógica para além da comida, ela se estende às experiências, às palavras, aos acontecimentos, aos sentimentos.
Aqui, a digestão acontece pela escuta ativa. Não basta ouvir — é preciso compreender.
E as “enzimas” desse processo são a nossa bagagem: o que vivemos, as referências que carregamos, as histórias que nos formam.

O que causa indigestão, nesse mundo tantas vezes indigesto, é a incapacidade de processar e transformar.
Quando não digerimos, sobram resíduos.
Sobram toxinas.
E diminuem as possibilidades de nos tornarmos algo novo, nutrido, nutritivo.

Como começar um novo ano diante de uma espécie de “vale tudo” global — pela força, pelo poder — sem nos envenenar por dentro?
Como elaborar tudo isso sem intoxicar o corpo, o pensamento, a prática?

Comecei o ano assistindo a um incêndio. Literalmente.
A torre de uma igreja bicentenária atravessada pelo fogo de um artifício.
O que parecia perene queimado pelo que nasce para desaparecer.

Nem tudo que queima se transforma – mas tudo que queima nos convoca a decidir o que fazer com as cinzas.

Voltar ao simples torna-se um ato de cuidado. Escutar o vento, olhar o céu, sustentar a leveza possível. Não como fuga, mas como um recalibrar do corpo e do olhar.

Empinar uma pipa, um papagaio.
Deixar que o azul do céu penetre pelos olhos e seja digerido pelo corpo inteiro — azul que acalma, contempla, a cor do céu e do mar.

Perceber o vento.
Ele leva a pipa para um lado e para o outro.
E a linha responde: você pode soltar, puxar, baixar, mover.
Você tem as rédeas, mas não controla tudo.
É preciso aprender a entrar na dança do vento.

A torre da imagem já não existe mais.
O que segue é o vento.
O céu azul.
E o gesto simples – insistente – de empinar uma pipa.

fotografia de Luiz Risi. Amsterdam, 2025.

ojaskara.org

Ojaskara é um campo de práticas que articula saberes védicos e estratégias culturais para apoiar processos de pertencimento, cuidado e transformação.

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