permane(ntre) ser

Espaço e tempo, conteúdo e forma — onde e quando, o que e como. Atravessados por forças visíveis e invisíveis, por decisões conscientes e por aquilo que só se revela no percurso. É a partir desse campo intermediário que este trabalho se constrói. Ojaskara, como prática em formação, vem se afirmando como prática de pertencimento — e pertencer, no fundo, não é outra coisa senão estar entre.

Passei o último ano revisitando os últimos cinquenta. Não como quem fecha um ciclo, mas como quem reorganiza um campo de forças. Reuni projetos, re-arquivei a minha própria vida, tornei visíveis alguns caminhos — vinte e quatro deles estão agora no site, outros seguem em processo, porque o trabalho nunca se apresenta de uma vez. Nesse percurso, escrevi um livro, criei um espaço, organizei um acervo. Mantive uma relação, uma escrita, o movimento. Tudo isso como prática de continuidade.

Criar canais para recuperar do passado insumos para o presente e o futuro tornou-se parte essencial do processo. Não por nostalgia, mas por ousadia. Ousar a partir do que já foi vivido tem outra dimensão: não é um salto no escuro, é um salto informado, atravessado por memória, corpo e experiência. O risco permanece, mas o gesto ganha consistência.

Nada vai mudar em 2026 e, ainda assim, tudo continuará a mudar, como muda todos os dias. O que se transforma não é o gesto, mas a maneira como ele se sustenta no tempo. A ideia de manutenção passou a ocupar um lugar central: manter o que se formou, o que segue se formando, manter viva a própria formação. Não como repetição, mas como atenção. Dar forma à ação enquanto se observam as reações, afastando o que não combina, não integra, não acrescenta.

Há um trabalho silencioso em reconhecer os venenos — os meus e os dos outros — e, ao mesmo tempo, fabricar antídotos. Um exercício contínuo de permitir relaxar, reavaliar, redirecionar, reviver. Do deserto à neve, do que aquece ao que refresca, habito esse intervalo instável onde corpo e pensamento aprendem a fazer frente— mais do que a controlar — às forças que os invadem e atravessam.

Deixar de sangrar regularmente. Deixar sangrar quando é preciso. Escancarar o sangue não como ferida, mas como matéria viva, sinal de que algo ainda circula. Aprender o tempo da pausa e o tempo da ação: menos pausa, mais pausa, ajustando o ritmo sem perder o pulso.

O salto entre o deserto e a montanha nevada não acontece sobre um abismo absoluto. A trajetória se dá em espiral: voltamos muitas vezes aos mesmos pontos, às mesmas questões, aos mesmos padrões — mas nunca no mesmo lugar. Cada retorno carrega outro ponto de vista, outra maturidade, outra responsabilidade. A queda, quando existe, não é fim, mas reentrada.

Relançar o movimento, apesar dos desafios, tropeços e descompassos, e persistir no exercício  —  sempre imperfeito — de reconhecer o outro como parte de mim. Não como fusão, mas como interação. Respeitar no outro aquilo que exijo para mim: agir com ética, reconhecer limites. Limite não como muro ou barreira, mas como território intersticial, espaço de negociação e escuta. Fronteiras rígidas tendem à guerra; o que se move entre um e outro exige atenção, cuidado e compromisso para que o caos não se converta em colisão.

Agir, afinal, é responder pelos efeitos do que se escolhe. Sustentar ações compatíveis com a permanência de uma vida humana autêntica e confiar que toda queda ainda pode se transformar em impulso para novos saltos.

Busco leveza no ar, aterro quando necessário, ajo com fogo, reflito na água, escuto. É nesse movimento, entre elementos, tempos e estados, que a vida  —  e o trabalho  — continuam a ganhar forma.

fotografia de Vitor Costa, Marrocos, 2025.

ojaskara.org

Ojaskara é um campo de práticas que articula saberes védicos e estratégias culturais para apoiar processos de pertencimento, cuidado e transformação.

https://www.ojaskara.org/
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