glicínias não pedem licença

A vida de imigrante neste mundo em retrocesso — que parece esquecer cada vez mais a natureza migrante do próprio ser humano — pode ser desgastante. Esse cansaço ganha outra camada quando se vive no país que colonizou o seu. Séculos depois, ainda persiste a necessidade silenciosa de reafirmar o óbvio: que pessoas vindas do Sul podem ser altamente qualificadas, intelectualmente complexas, impossíveis de caber nos enquadramentos estreitos através dos quais tantas vezes ainda são lidas.

Continuo acreditando que aquilo que fazemos — de bom e de mau — permanece operando no presente, reorganizando o futuro de maneiras visíveis e invisíveis. 

Depois de um inverno particularmente longo e chuvoso, a chegada da primavera muda também o humor das cidades. As primeiras flores a surgir costumam ser as glicínias, e só recentemente compreendi por que sempre me atraíram tanto. Num texto publicado no Público Brasil, Sérgio Ignácio descreve-as como metáfora da imigração: plantas que não conquistam território pela força, mas que crescem através da relação. São plantas que precisam de estrutura para crescer — e que, à medida que florescem, transformam precisamente aquilo que as ampara. Viver junto, escreve ele, nunca foi preservar purezas; foi sempre negociar transformações.

Nas últimas semanas, mergulhada no trabalho de avaliação de projetos vindos de diferentes partes do mundo, essa ideia voltou com força. Há uma quantidade extraordinária de iniciativas acontecendo: investigações sensíveis, práticas coletivas, formas inventivas de pensar território, memória, ecologia, cuidado. E, ao mesmo tempo, uma sensação persistente de fragmentação — não pela ausência de qualidade, mas pela dificuldade de criar estruturas capazes de conectar experiências díspares sem achatá-las. 

Como criar linguagem comum sem apagar diferenças? Como conectar sem reduzir? Como construir pertencimento sem exigir assimilação?

O pertencimento, afinal, talvez se baseie em transformação mútua e constante. Ninguém permanece intacto depois da convivência. Precisamos menos de fronteiras — muros, cercas, cada um no seu quadrado — e mais de litorais: onde areia e água, sendo substâncias tão diferentes, se tornam interdependentes, sem se anular. A areia continua areia, a água continua água — mas é no encontro entre ambas que se demarca o litoral.

Refletindo sobre tudo isso senti a necessidade de reorganizar também as demarcações do meu próprio trabalho. Através de Ojaskara, venho revisitando as relações entre campo, corpo e arquivo — práticas que antes pareciam dispersas ou compartimentadas e que hoje reconheço como elementos de uma mesma investigação. Um trabalho que se reinventa para acolher simultaneamente o corpo que migra, o arquivo que se reorganiza, o campo que se reconstrói.

Há algo profundamente político no gesto de revisitar, reorganizar, renomear: não é uma busca de estabilidade, mas uma recusa da rigidez. William Blake escreveu que “sem contrários não há progressão”. A vida não avança pela eliminação das tensões, mas pela capacidade de permanecer em relação com elas e transmutá-las. Não chegar a um lugar e permanecer intocável. É precisamente nesses espaços de travessia que o trabalho continua, em movimento, entre campo, corpo e arquivo.

As glicínias não pedem licença ao jardim. Transformam-no.

fotografia de Fernanda Curi, Maia, 2026.

ojaskara.org

Ojaskara é um campo de práticas que articula saberes védicos e estratégias culturais para apoiar processos de pertencimento, cuidado e transformação.

https://www.ojaskara.org/
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