voltar ao eixo

A intensidade dos últimos dias, que me levou por uma semana a Londres para estudar astrologia védica com Marc Boney e um grupo de 25 astrólogos de diferentes partes do mundo, ainda não me permite escrever sobre essa experiência. Esse é um texto que provavelmente ficará para o próximo mês.

Por enquanto, o que me cabe é fazer o caminho de volta.

Voltar para casa. Voltar para a rotina. Voltar para o corpo. E, principalmente, voltar para aquilo que o Ayurveda chama de prakriti: a constituição única de cada ser vivo, sua natureza fundamental, seu eixo.

Segundo o Ayurveda, todos os seres são compostos pelos cinco elementos — terra, água, fogo, ar e espaço — organizados em proporções singulares que dão origem aos três doshas: Vata, Pitta e Kapha. Cada pessoa possui os três, mas em combinações únicas. E é justamente essa composição que buscamos preservar e compreender ao longo da vida.

Os doshas estão, por natureza, em constante movimento — são as forças que sustentam, organizam e transformam a vida. Experiências intensas tendem a deslocar suas proporções, e  isso não é necessariamente um problema. Não há um equilíbrio estático a ser preservado para sempre, mas um ajuste contínuo entre aquilo que somos e aquilo que vivemos.

Toda transformação exige assimilação.

Uma mudança de estação, de ambiente, uma semana de estudo profundo, encontros, deslocamentos, mudanças de alimentação, sono, rotina e estímulos sensoriais produz inevitavelmente movimento interno. O Ayurveda ensina que os desequilíbrios começam muito antes dos sintomas se instalarem — emoções, hábitos, alimentação e ambiente afetam os doshas continuamente. Por isso a prevenção ocupa um lugar tão importante nessa tradição: não se trata de esperar que algo adoeça para então corrigir, mas de observar, ajustar, retornar. Reencontrar a própria constituição sempre que necessário.

É nesse espírito que tenho passado os últimos dias: digerindo aprendizados, organizando anotações, permitindo que o conhecimento encontre seu lugar antes de transformá-lo em discurso.

O que consigo nomear agora é a gratidão por continuar estudando uma tradição que me acompanha há tantos anos. Antes mesmo da astrologia, foi o Ayurveda que abriu minhas portas para os Vedas e para uma forma de conhecimento que continua se revelando em camadas.

Há algo de profundamente bonito em dedicar anos ao estudo de uma linguagem. Aprender uma linguagem é aprender uma forma de perceber o mundo. E, quando refinada, ela amplia não apenas nossa capacidade de ver, mas também as possibilidades de ser e de existir neste mundo.

Talvez seja por isso que a astrologia continue me fascinando. Não como um sistema de respostas prontas, mas como uma linguagem capaz de revelar padrões, ciclos, possibilidades e momentos de vida que muitas vezes ainda não conseguimos nomear. Assim como o Ayurveda, ela parte da observação dos processos em movimento. E, embora a previsão seja uma parte importante desse conhecimento — e uma das áreas que pude aprofundar recentemente — seu valor não está apenas em antecipar acontecimentos, mas em compreender a dinâmica que os torna possíveis.

No próximo mês, talvez eu consiga escrever sobre Londres.

Por agora, sigo praticando a arte de digerir e integrar.

fotografia de Vitor Costa, Londres, 2026.

ojaskara.org

Ojaskara é um campo de práticas que articula saberes védicos e estratégias culturais para apoiar processos de pertencimento, cuidado e transformação.

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