cheia de entusiasmo

A primeira vez que ouvi o significado da palavra “entusiasmo” foi no século passado, numa peça com a maravilhosa Denise Stoklos e seu Teatro Essencial, no Rio de Janeiro. Sozinha no palco, ela definia a palavra como “Deus comigo”, ou “Deus em mim”.

Na época, isso me marcou profundamente. E, como toda grande marca, esse significado me acompanhou por todos esses anos. Até porque, naquele momento, eu não tinha muita clareza sobre o significado de Deus, mas entendia que se tratava de algo muito poderoso. Ter Deus comigo significaria, no mínimo, sentir esse poder em mim.

Neste último mês, tive a oportunidade de passar uma temporada muito especial com uma grande amiga de infância e sua filha. Aos doze anos, a menina disse à mãe: “Mum, I really like Nanda, she is so full of enthusiasm…”

Confesso que foi um dos melhores elogios que recebi nos últimos tempos.

Por isso voltei a pensar na palavra. De fato, sua origem é ainda mais bonita. “Entusiasmo” vem do grego enthousiasmós, formado por en (“em, dentro de”), theós (“deus”) e -ismós, um sufixo que indica estado ou condição. Expressava a ideia de estar inspirado por uma divindade, de ter o divino dentro de si. 

Com o tempo, a palavra foi perdendo seu sentido estritamente religioso e passou a significar ânimo, inspiração, paixão. Para mim, no entanto, a imagem original permanece: a ideia de ter, dentro, uma força capaz de inspirar, mover e dar vida.

Nesta altura da vida, a chamada meia-idade parece fazer tudo ir ficando um pouco pela metade. Nada parece muito cheio. Energia, força, beleza, saúde, alegria, agilidade, disposição, vigor… tudo o que nos foi dado, passa agora a exigir um esforço a mais. 

Mas, pensando bem, nem tudo diminui.

Na mesma medida em que o colágeno e a firmeza do corpo diminuem, aumenta uma certa tranquilidade diante daquilo que sabemos, experimentamos e vivemos. Muita gente percebe o envelhecimento apenas como um processo de diminuição. É importante pensá-lo também pela perspectiva do que ele nos acrescenta.

E não esquecer tudo aquilo que a vida nos brinda: mais paciência, mais entendimento, mais sabedoria, mais aceitação. Se recusarmos ou negarmos essas transformações inevitáveis, corremos o risco de perder algo essencial: a capacidade de manter, honrar e elevar o entusiasmo que existe em cada um de nós — e que, quando vivo, pode também contagiar quem está ao nosso redor.

Por isso, é vital continuar viajando, externa e internamente, estudando e descobrindo, no inevitável, no improvável, no desconhecido e no invisível, a beleza da surpresa. Surpreender-se. Entusiasmar-se.

Essa reflexão, em plena temporada de eclipses, faz pensar também sobre a luz. Um eclipse não apaga o sol. Por algum tempo, algo se coloca entre nós e ele, criando uma sombra, alterando a paisagem, fazendo com que a luz pareça desaparecer. Mas ela continua lá.

A imagem do eclipse também pode ser uma imagem da vida. Há momentos em que alguma coisa se interpõe entre nós e a nossa luz. O corpo muda, as circunstâncias mudam, as perdas chegam, os caminhos se transformam. Às vezes, simplesmente não conseguimos enxergar com a mesma clareza aquilo que antes parecia belo e evidente.

Mas talvez a questão não seja evitar ou mascarar a sombra, e sim aprender a atravessá-la sem esquecer que existe luz do outro lado. E, mais ainda, que a luz continua presente, dentro de nós, mesmo quando não conseguimos vê-la. 

Continuar encontrando luz mesmo quando algo a encobre.

Penso no caminho que venho seguindo em ojaskara — que, antes de tudo, significa produção de Ojas, ou vitalidade — um caminho que tem a ver com essa busca constante pela luz, pelo que é essencial, pelo que nutre a alma.

Isso pode ser traduzido de muitas maneiras. Pode ser vitalidade. Pode ser presença. Pode ser coragem. Pode ser desejo. Pode ser curiosidade.

Eu fico com a pureza da resposta da criança: entusiasmo. 

Manter o divino em mim. Continuar encontrando força para olhar o mundo e, apesar de tudo, ainda ser capaz de me surpreender.

Porque envelhecer é também isso: não deixar que a experiência mate a surpresa; não permitir que o conhecimento se transforme em certeza absoluta; não confundir maturidade com resignação. E continuar cheia. Viva, iluminada.

Continuar iluminando.

Cheia de entusiasmo.

fotografia de Fernanda Curi, céu de agosto, 2026

ojaskara.org

Ojaskara é um campo de práticas que articula saberes védicos e estratégias culturais para apoiar processos de pertencimento, cuidado e transformação.

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